Super-heroína sem capa
Ela sabia que aquilo não fazia sentido.
Todo mundo, todos os dias, anda de elevador.
Ninguém que conhecia tinha pavor de elevador — só ela.
O mais curioso é que houve um tempo em que subia e descia sem sentir nada: nem medo, nem desconforto, nem sequer consciência do que estava fazendo. Não se lembrava de nenhum episódio traumático que justificasse essa recusa teimosa em entrar numa caixa suspensa por cabos, apertar o botão do andar desejado, esperar a porta fechar e se deixar transportar para outro pavimento.
A sensação desagradável de falta de ar em ambientes fechados começou quando precisou fazer um exame de ressonância magnética para investigar uma dor irrelevante no ombro. Ajudada por uma enfermeira, deitou-se numa maca que começou a deslizar lentamente em direção ao tubo aberto apenas nas extremidades. À medida que avançava seu ar parecia rarear.
“É só um exame”, pensou, e tentou relaxar. Mas, em poucos minutos, deixou de perceber a realidade de estar num ambiente seguro, cuidando da sua saúde, dentro de um hospital.
Foi transportada para um mundo de pavor: presa, imobilizada, sufocada, prestes a desmaiar. Apertou a campainha que lhe havia sido entregue para emergências, agora transmutada em botão de salvação. Uma voz metálica, vinda de algum alto-falante próximo ao seu ouvido, lhe disse que estava tudo bem e que aguardasse um pouco mais.
— Me tirem daqui… — murmurou. O ar já lhe faltava.
— Só mais um pouquinho e estamos quase terminando!
— ME TIREM DAQUI! — gritou, reunindo forças que nem sabia ter, e começou a mover as pernas que se chocavam contra as paredes internas do equipamento. Após alguns instantes — que lhe pareceram uma eternidade — a maca enfim recuou, e ela emergiu lívida daquele tubo que quase a matara.
Depois desse dia, ainda andou algumas vezes de elevador, mas algum parafuso dentro da sua cabeça havia afrouxado, até se desprender de vez.
Lembrou-se da primeira recusa consciente: o elevador lotado que lhe levaria ao terceiro andar para uma consulta com o dentista. Preferiu subir de escada. No dia seguinte, aconteceu ao entrar no elevador do prédio de uma amiga que morava no décimo andar. Apertou o botão, a porta se fechou — e, tomada pelo desespero, começou a pressionar todos os botões intermediários até que o elevador parou no segundo pavimento. Subiu o que faltava – oito andares! - a pé. Chegou para o encontro suada, assustada, e na hora de ir embora desceu, claro, pelas escadas.
Gastou rios de dinheiro e incontáveis horas em terapias, sem sucesso.
Foram anos driblando compromissos nas alturas, evitando trabalhos e encontros que exigissem encarar seu medo — sempre com êxito.
Até aquele dia. Até aquele momento.
Um medo supera o outro.
A angústia de não chegar a tempo de encontrar seu pai, que acabara de sofrer um AVC e estava sendo levado às pressas ao centro cirúrgico para uma operação de emergência, fez com que ela superasse a si mesma. Acompanhada por um dos médicos do hospital, sem chance de explicar seu pavor ou procurar a escada, deixou-se conduzir pelo braço de alguém que atribuiu sua palidez e tremor à preocupação com o enfermo. Enquanto esperava o elevador o doutor a amparou, sorriu e finalmente a guiou para dentro da caixa iluminada que a levou, como uma super-heroína voadora sem capa, ao quinto andar do hospital — ao encontro do seu pai.


Ufa!!! Bom que acabou, já estava quase com as mesmas impressões da autora… texto real e envolvente!
Além dos que constam na história como tal, poucos homens são heróis se capa.
As mulheres, apenas com as exceções de praxe, todas o são.
Têm que trabalhar fora para ajudar na manutenção da casa. Cozinhar, lavar poupa cuidar dos filhos, se pobres, de muitos filhos.
Umas, abandonadas pelo marido ou companheiro, têm que dar conta de tudo sozinhas.
Aqui, no Brasil, você certamente se lembra da mãe que fazia sopa de papelão para alimentar os filhos.
Esta de sua crônica, agora famosa, felizmente, a ressonância magnética não lhe deu agorafobia.
Obrigado por mais este conto, que vai me fazer sonhar com você e minhas tantas heroínas.