Menino morto
Eu fiz tudo direitinho e deu tudo tão errado… onde está o menino que eu cuidei?
A pergunta ecoa dentro de mim como um lamento antigo, e não encontro resposta, por mais que eu pense e repense...
Me sento na beira da cama e fecho os olhos para voltar no tempo, porque a dor me empurra para lá, para longe do presente.
Ele é pequeno, tão pequeno… o cheiro de leite ainda quente, o choro manhoso que só cessa quando eu o embalo devagar. Ele dorme e eu espero, com medo dele acordar, até que o coloco no berço e só então apago a luz e saio na ponta dos pés.
Acreditei que minha presença bastava para protegê-lo de tudo e, por muito tempo, foi assim.
Acompanho seus primeiros passos, tortos e apressados. Ele cai, se levanta, olha pra mim com os olhos brilhando, e eu bato palmas, feliz, como se aquele fosse o maior feito que alguém poderia alcançar.
Ainda não havia medo. Não havia raiva. Não havia essa sombra que depois passou a morar em seu olhar.
— Você vai ser um homem bom — eu digo, ajeitando a camiseta pequena no corpo magro. — Melhor que todo mundo.
Eu disse isso tantas vezes… como um mantra. Como uma reza. Como se palavras pudessem moldar destino. Mas o mundo gritou mais alto e abafou a minha voz.
Nesse ponto as lembranças começam a mudar de cor.
Já não são só luz.
Ele chega tarde, num silêncio estranho, os olhos desviando. Ouço as primeiras respostas atravessadas, encontro o primeiro dinheiro sem explicação.
Eu sinto medo… do meu próprio filho.
E ainda assim, eu tentei. Deus sabe o quanto tentei. O medo que eu sentia dele não me impediu de tentar.
Chamo, brigo, choro, imploro. Ele promete que vai mudar, que vai largar o vício, que vamos recomeçar. Garante que ainda dá tempo. Mas já não é mais o menino que corria para os meus braços. É como se tivesse ido embora aos poucos, deixando no lugar um estranho, um homem, com o mesmo rosto.
E então já não me promete nada, nem me olha nos olhos.
Me contam que ele trafica, e meu mundo se desfaz em pedaços. Cacos de mundo espalhados pelo chão, à minha volta, que me impedem de caminhar. E agora ele está morto.Frio. Sozinho em algum lugar onde eu não posso alcançar. E eu não consegui impedir.
Levo as mãos ao rosto, sinto as lágrimas quentes, sinal de que eu cheguei no presente.
— Eu fiz tudo direitinho… — repito vezes sem fim – Onde foi que eu errei?
Mas o quarto não responde. Ninguém responde. Ninguém sabe.
Fujo. Volto às lembranças, ao encontro daquele menino pequeno, rindo, correndo descalço pela casa, feliz. Abro meus braços e ele se joga neles, e por um instante esqueço que não há nada e nem ninguém para abraçar. Só há ausência. E a pergunta – sempre a mesma pergunta - que eu nunca saberei responder.


Você sempre repara nas coisas boas, interessantes ou bizarras que há ou acontecem a seu redor ou no mundo; escreve crônicas que mostram facetas humanas, nos divertem, e sempre deixam, explícitas ou não, o moral da história.
Neste texto que eu li como um lindo poema trágico, um soco no plexo que trava garganta e palavras, em que a moral é o texto inteiro.
Percepção aguda de uma praga, uma desgraça que assola o mundo, destrói filhos, famílias, amargura e destrói mães.
É urgente que seja difundida por todos os meios de mídia, escrita, falada, assim compartilhada, para que muitas mães que tenham criado e cuidado seus filhos com desvelo, carinho e amor e achem que tenham errado, falhado, se perguntando onde foi o erro, o ponto, a circunstância que as levaram a isto; como em seu poema, Eunice, nunca acharão a resposta.
Eu tô aqui emocionada.Gostaria que continuasse..