Casa dos outros
Quem pode ficar em casa sem trabalhar, só cuidando de filho?
Ela não podia. Bem que gostaria, mas precisava ganhar dinheiro.
Casou-se cedo, obrigada pela mãe (brava que só), já com a filha na barriga. Não deveria ter se casado. Continuaram brigadas, seu marido não ajudava em nada e mal cuidava de si, que dirá de uma mulher e de uma criança recém-nascida.
No início eles se gostavam, mas, aos pouquinhos, o gostar foi sendo substituído por uma coisa diferente, como o costume de estar junto. Foram se acostumando um ao outro. E se respeitavam. Mas Ligia não podia contar com João, nem financeiramente, nem para cuidar da menina.
João trabalhava o dia inteiro e quando chegava em casa, cansado e com a roupa suja de graxa, se jogava no sofá em frente à TV e lá ficava até ser chamado para jantar. Não por ser imprestável, mas por cansaço mesmo — um cansaço que ocupava tudo.
Sempre que surgia, o assunto virava discussão.
“Por que você não faz as unhas das vizinhas?”
“Porque eu não sei fazer unha”.
“Então faz quentinha...”
“O que eu sei fazer é faxina. E aqui não vai ter quem me pague por esse serviço. O jeito é descer pra Zona Sul...”
“E quem vai olhar a menina?”
Ele suspirava. Ela também. A menina. Sempre a menina.
João trabalhava numa oficina mecânica e era considerado rico para os padrões da comunidade, mas o que ele ganhava era usado para pagar o aluguel, a luz, o botijão de gás e a comida simples de todo dia. Um terço do seu salário saía direto do contracheque para a conta da ex-mulher, para cobrir as despesas de dois filhos do primeiro casamento, e o que ele dava para eles fazia falta para a filha dos dois.
Antes da Leticia completar um ano, Ligia decidiu começar a trabalhar. Não houve briga nem bate-boca, ao contrário: João sentiu certo alívio quando ela passou a fazer umas faxinas que ajudavam nas despesas da casa.
A princípio, ia apenas uma vez por semana. Deixava Leticia aos cuidados da vizinha, e quando chegava, exausta de um dia inteiro trabalhando, ela lhe entregava a menina alimentada e de banho tomado. Era um descanso dentro do cansaço poder levar a filha para casa prontinha para dormir, colocar ela no berço e ir tratar do jantar do João.
A vizinha falava pouco e Ligia não sabia como tinha sido o dia de sua filha - se ela tinha dormido ou brincado, se tinha sujado as fraldas, ou comido bem. Mas, como a menina seguia saudável e se jogava em seus braços sem medo, deduziu que ela estava sendo bem cuidada. E isso bastava.
Passou a faxinar mais dias na semana.
Preferia trabalhar só, mas, com raras exceções, era a diarista de uma casa onde havia uma funcionária fixa. E, com raríssimas exceções, essa “primeira funcionária” era alguém que ela, se fosse patroa, contrataria.
Viu de tudo um pouco — gente usando o banheiro e voltando a cozinhar sem lavar as mãos; objetos quebrados escondidos na esperança de que nada fosse notado; roupa queimada pelo ferro de passar “sumindo”; comida no lixo e produto de limpeza desperdiçado. Nunca falou nada. Nunca dedurou ninguém. Respeitou e foi respeitada. Cada um com sua consciência — e ela com a dela.
Até o dia em que tudo mudou.
Ligia não conseguiu ficar quieta quando viu a babá de confiança, com muito mais tempo de casa do que ela, maltratar a menina pequena que não queria comer. Entrou no momento em que a criança virava a cabecinha afastando a boca da colher e testemunhou quando a babá segurou seu rostinho com força e forçou a colher boca adentro. A criança chorou. O choro virou susto, o susto, engasgo. A menina aspirou a comida e ficou uns segundos sem poder respirar. Assistir àquilo foi a gota d’água que transbordou a mágoa dentro dela, fez sua raiva aflorar, e teve que se segurar para não voar sobre a criatura covarde e dar uns tapas nela.
Passada a raiva, a tristeza invadiu seu peito, e Ligia se perguntou se a vizinha, alguma vez, teria feito o mesmo com a sua Leticia. Olhou-se no espelho do banheiro, lavou o rosto, a nuca e as mãos, se recompôs, fez de conta que não era com ela e avisou em casa que chegaria tarde. Esperou os patrões voltarem do trabalho e contou tudinho o que viu, na frente da babá. Teve certeza de que seria despedida quando a moça negou tudo, com a menina tranquila em seu colo, já esquecida do que tinha acontecido e sem entender nada do que estava sendo dito. Mas, quem foi mandada embora, foi a outra, com muito mais tempo no emprego que ela.
Voltou para sua casa diferente, sentindo uma espécie de torpor.
Quando a vizinha abriu a porta e lhe entregou Leticia, que sorria com os bracinhos estendidos para a mãe, Ligia a segurou no colo e desabou num choro incontido que nem tentou disfarçar. Naquele momento, prometeu a si mesma que nunca mais deixaria a filha para trabalhar na casa dos outros.
Não pôde cumprir a promessa.
Mas essa já é outra história
.


Que bom que pelo menos acreditaram nela. Muitas são as mães que cuidam dos filhos de outras mães, rezando para que os seus também estejam sendo cuidados.
“Não pôde cumprir a promessa.
Mas essa já é outra história”
Você contou uma história linda de trabalho e tristeza da Lígia.
Ela merece outra história.
Por favor, a conte para nós!